TDAH reconhecido na França – a origem da controvérsia.

 

 

menina_francesaNo mês passado (fevereiro de 2015) as Autoridades de saúde na França reconheceram oficialmente o TDAH. A decisão veio acompanhada de uma série de recomendações para os médicos, familiares e profissionais de saúde enfrentarem o problema. Notícias assim nos dão muitos motivos para comemorar, mas também levantam questões importantes, que portadores e familiares reflexivos desejam esclarecer.

  • Porque autoridades de saúde ainda relutam em reconhecer o TDAH?
  • Porque o TDAH gera controvérsias, mesmo na classe médica?

Uma breve análise da história do TDAH pode ajudar a compreender a origem disso. Essa história é importante pois mostra que muitos temas contemporâneos sobre a natureza do transtorno tem origem antiga.

A Gripe de 1918-1919 (frequentemente citada como Gripe Espanhola) foi uma pandemia do vírus influenza que se espalhou por quase toda parte do mundo. Nessa época Constantin Von Ecónomo (1876-1931) descreveu a encefalite letárgica que causava alterações cognitivas e comportamentais semelhantes ao TDAH.

Muitas das observações dessa época foram feitas em pessoas com lesões cerebrais. Isso levou a denominação “lesão cerebral mínima”.

Na década de 1950, surgiu o metilfenidato, utilizado, a partir de então, sistematicamente em crianças e a partir de 1970 em adultos.

É provável que a perspectiva sobre a hiperatividade na América do norte tenha começado a divergir da perspectiva adotada na europa durante a década de 1960.  Os estudiosos americano a encarava como uma síndrome comportamental marcada por um nível de atividades fora do normal, vendo-a como uma perturbação relativamente comum não necessariamente associada a lesões cerebrais. Na grã-Bretanha a visão anterior mais limitada de uma síndrome de lesão cerebral permanecia.

As divergências de ponto de vista levou a grande discrepância entre americanos e europeus na modalidade de tratamento preferida, no percentual estimado de prevalência do transtorno e no estabelecimento de critérios de diagnóstico.

Mesmo no final da década de 1970 essa grande discrepância ainda permanecia. Os profissionais de saúde americanos reconheciam o distúrbio como um problema comum, com necessidade de tratamento medicamentoso e mais provável de ser um déficit de atenção, enquanto que os europeus continuavam a encarar como um problema incomum, definido como hiperatividade grave e associados a lesões cerebrais. O tratamento seria psicoterapia e treinamento parental em controle infantil, o uso do medicamento seria menosprezado e pouco usado.

Felizmente a partir de meados da década de 1980 o panorama começou a encaminhar-se para um consenso. Nesse período houve um acentuado aumento na produção de livros, estudos científicos e palestras sobre o tema. Foram apresentadas evidências sólidas que se trata de uma condição prejudicial ao desenvolvimento, de natureza muitas vezes crônica, com predisposição genética ou hereditária.  Mesmo assim alguns acreditavam que sua gravidade era afetada por fatores ambientais, especialmente o familiar. Essa visão foi enfraquecida por crescentes evidências da hereditariedade da condição,  ainda assim continuou ganhado popularidade.

Diante do aumento na quantidade e na qualidade dos estudos científicos, o número de entidades de saúde que não reconhecem o TDAH tem diminuído significativamente nos anos recentes. O mais recente  exemplo, como mencionado, ocorreu em fevereiro na França quando a Alta Autoridade de Saúde na França (HAS, na sigla em francês) reconheceu oficialmente, o Transtorno. Devemos esperar ver mais desses avanços nos anos que virão.

É notório que o reconhecimento internacional do TDAH teve um elevado crescimento desde o ano 2000, devido atuação de associações de apoio aos pais de portadores, criadas em muitos países, e o apoio que muitas delas receberam da CHADD (Chidren and Adults with Attention Deficit Disorder). No Brasil, pode-se citar a ABDA como exemplo de entidades Que contribuem para o estabelecimento desse consenso.

Logicamente não  seria justo deixar de mencionar a grande contribuição da internet nesse processo, pois por meio dela pais e interessados em qualquer parte do mundo podem ter acesso às descobertas científicas mais recentes disponíveis. Assim os profissionais da Itália ou da França, muitos dos quais ainda adotam uma visão psicanalítica dos transtornos da infância como algo que surge no começo da criação, não poderão mas contar com a falta de contestação dos pais das criança que tratam, visto que eles podem descobrir facilmente na internet que essa visão carece de credibilidade científica.

Estes importante fatos talvez indiquem que em breve não haverá mais uma visão americana sobre o TDAH, nem a visão italiana ou francesa. Ao invés disso haverá uma visão internacional, um consenso mundial baseado em evidências científicas documentadas.

Para os leitores mais ávidos por informação sobre a história do TDAH, quero sugerir duas fontes de leitura:

  1. O capítulo um, intitulado: história, do livro ‘Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade: Manual para Diagnóstico e Tratamento’, de Russell A. Barkley.
  2. E o primeiro capítulo, intitulado: breve história do conceito, do livro ‘TDAH ao longo da vida’, de Mario R. Louzã neto.

2 thoughts on “TDAH reconhecido na França – a origem da controvérsia.

  • 18 de março de 2015 at 13:19
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    Muito importante ter sempre matérias a esse respeito, sou psicopedagoga.

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    • 19 de março de 2015 at 22:21
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      Obrigado Marilane Teixeira. considero particularmente interagir e compartilhar informações com pessoas esclarecidas como você. Fique a vontade para sugerir temas que gostaria de abordar aqui.

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